RUA – Resiliência Urbana em Ação:
Protegendo nossas cidades de eventos
climáticos extremos

Seca, Calor e Desigualdade: o Semiárido como Espelho da Crise Climática Brasileira

Por Bárbara Dantas de Sousa
Doutoranda e Mestra em Cidades Inteligentes e Sustentáveis (PPG-CIS UNINOVE) com pesquisa focada em Justiça Climática e Direito à Cidade. Pesquisadora Bolsista de fixação CNPq/MCTi no Centro de Eficiência em Sustentabilidade Urbana – CESU/Teresina. Diretora de Gestão de Patrimônio Imobiliário do Estado do Piauí. Ponto Focal em ESG da Secretaria de Estado da Administração do Piauí.
28 de setembro de 2025

DOI

Imagem gerada por inteligência artificial – Dalle 3

O semiárido brasileiro, que reúne mais de 1.400 municípios e cerca de 27 milhões de habitantes, enfrenta historicamente a escassez hídrica e a recorrência de secas (CASTRO, 2025, p. 6). Embora o imaginário preconceituoso ainda associe a região ao meio rural, trata-se de um território predominantemente urbano: a maioria da população vive em cidades médias e pequenas, onde os impactos da crise climática assumem novas dimensões. Ondas de calor intensificam o efeito das ilhas urbanas de calor, a escassez de água compromete o abastecimento e as enchentes expõem a fragilidade da infraestrutura de drenagem e habitação.

Apesar de mais de um século de políticas voltadas à mitigação dos impactos das secas, a vulnerabilidade permanece. Iniciativas como a transposição do rio São Francisco, o Programa Cisternas e a Operação Carro-Pipa ainda carecem de articulação e integração efetivas (CASTRO, 2025, p. 29). O resultado é um padrão de respostas fragmentadas que não garante segurança hídrica nem justiça socioambiental.

Em 2024, a percepção social evidenciou o agravamento do problema: pesquisa apontou que 57% dos nordestinos consideraram os eventos climáticos mais severos que em anos anteriores, com 96% registrando aumento das temperaturas e 83% identificando secas mais intensas (AGÊNCIA BRASIL, 2025, p. 2). Esse dado reflete tendências já apontadas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2021), que alertou para a intensificação dos extremos climáticos em regiões vulneráveis do Sul Global.

O semiárido como espelho da crise climática

As secas no semiárido são documentadas desde o século XVI, com registros de fome, mortes em massa e deslocamentos populacionais (CASTRO, 2025, p. 12). Em estiagens prolongadas recentes, municípios registraram perdas agrícolas superiores a 90%, revelando o impacto direto sobre a segurança alimentar e a economia regional (CASTRO, 2025, p. 13).

Nas cidades do semiárido, os impactos assumem formas distintas: colapso dos sistemas de abastecimento de água, sobrecarga nos serviços de saúde e aumento das doenças relacionadas ao calor extremo. Ondas de calor agravam as desigualdades ao afetar desproporcionalmente bairros periféricos, onde a falta de arborização e a precariedade habitacional intensificam o estresse térmico (IPCC, 2021). Chuvas intensas, ainda que menos frequentes, sobrecarregam sistemas de drenagem urbana frágeis e expõem a população a riscos de deslizamentos e inundações (ONU-HABITAT, 2016).

Esses elementos demonstram que o semiárido é um espelho das contradições do Brasil diante da crise climática: investimentos vultosos sem integração estratégica, políticas desarticuladas e uma dependência de soluções paliativas.

Desigualdade e injustiça climática

A crise climática não afeta todos da mesma forma. No Nordeste, a percepção da estiagem atinge 86% dos moradores do interior com renda familiar de até um salário mínimo, percentual superior à média regional (AGÊNCIA BRASIL, 2025, p. 2). Esse dado revela como as populações mais pobres vivenciam de forma mais intensa os efeitos da seca e do calor extremo.

O conceito de racismo ambiental, consolidado por Robert Bullard e aplicado ao contexto brasileiro por Acselrad (2009), ajuda a compreender essa desigualdade. Populações negras, indígenas e comunidades tradicionais estão entre as mais expostas a riscos ambientais, ao mesmo tempo em que recebem menos investimentos em infraestrutura. No semiárido, isso se traduz na dependência de políticas emergenciais, como o carro-pipa, que perpetuam vulnerabilidades em vez de enfrentá-las (CASTRO, 2025, p. 39).

A desertificação, apontada por especialistas como um dos principais riscos para o Nordeste brasileiro, amplia essas desigualdades. Como destaca o BRUA (2023), a degradação dos solos ameaça tanto a produção agrícola quanto a permanência das populações em seus territórios, atingindo de forma particular as comunidades mais empobrecidas. Nesse contexto, os impactos climáticos reforçam um ciclo de injustiça socioambiental que atinge principalmente grupos historicamente marginalizados.

Cidades em clima extremo

As cidades do semiárido concentram os efeitos das secas e das ondas de calor, que comprometem a saúde pública, a infraestrutura urbana e o direito à cidade. A Agenda 2030 (ONU, 2015) e a Nova Agenda Urbana (ONU-HABITAT, 2016) já alertavam para a necessidade de integrar justiça social, ambiental e urbana como condição para cidades resilientes.

Relatórios recentes do IPCC (2023) reforçam que os impactos da crise climática recaem com maior severidade sobre países e regiões em desenvolvimento, onde desigualdades estruturais potencializam os riscos. O semiárido brasileiro confirma essa tendência, revelando que, sem governança integrada, os extremos climáticos transformam vulnerabilidades em crises humanitárias.

Conclusão

Seca, calor e desigualdade fazem do semiárido nordestino um espelho da crise climática brasileira. A região evidencia a limitação de políticas públicas fragmentadas e emergenciais, mas também mostra que a crise não é apenas natural: é política e social.

O enfrentamento desse desafio exige superar a lógica paliativa e construir uma governança integrada que articule políticas de água, saneamento, urbanização e adaptação climática. Experiências recentes apontam que a integração entre ciência, políticas públicas e sociedade civil é o caminho para fortalecer a resiliência.

Tratar eventos climáticos extremos como questão estrutural das cidades, conectar justiça socioambiental ao direito à cidade e promover soluções que vão da escala local (como tecnologias sociais de captação de água), à escala urbana (como planejamento climático, mobilidade sustentável e infraestrutura verde).

As cidades do semiárido ensinam que a resiliência só será possível se a justiça social e ambiental estiver no centro das estratégias.

Referências

ACSELRAD, Henri. Ambientalização das lutas sociais: o caso do movimento por justiça ambiental. Estudos Avançados, v. 23, n. 65, p. 103-119, 2009.

AGÊNCIA BRASIL. Para nordestinos, efeitos do clima foram mais severos em 2024. Brasília, 15 abr. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2025-04/para-nordestinos-efeitos-do-clima-foram-mais-severos-em-2024. Acesso em: 18 set. 2025.

ANA – AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS. Plano Nacional de Segurança Hídrica. Brasília: ANA, 2019.

BRUA – Boletim de Resiliência Urbana e Ambiental. Combate à desertificação e resiliência urbana. 2023.

CASTRO, César Nunes de. Semiárido, escassez hídrica e articulação de políticas públicas. Rio de Janeiro: Ipea, 2025. (Texto para Discussão, n. 3086). DOI: https://dx.doi.org/10.38116/td3086-port.

CMAP – Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas. Relatório de Avaliação da Operação Carro-Pipa. Brasília: Governo Federal, 2023.

IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change. Climate Change 2021: Impacts, Adaptation, and Vulnerability. Cambridge: Cambridge University Press, 2021.

IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change. Climate Change 2023: Synthesis Report. Geneva: IPCC, 2023.

ONU. Transformando nosso mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Nova Iorque: ONU, 2015.

ONU-HABITAT. Nova Agenda Urbana. Quito: ONU, 2016. Disponível em: https://habitat3.org/the-new-urban-agenda.

SUDENE. Resolução Condel n. 150, de dezembro de 2021: delimitação do semiárido. Recife: Sudene, 2021.

Cite este artigo: Sousa, Bárbara Dantas. Seca, Calor e Desigualdade: o Semiárido como Espelho da Crise Climática Brasileira. RUA – Resiliência Urbana em Ação, 2025. DOI: 10.5281/zenodo.17220471. Disponível em: <https://rua.eco.br/publicacoes>.

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