RUA – Resiliência Urbana em Ação:
Protegendo nossas cidades de eventos
climáticos extremos

Ondas de calor nas cidades contemporâneas

Por Cristiane Criscibene Pantaleão
Doutoranda e Mestra em Cidades Inteligentes e Sustentáveis (PPG-CIS UNINOVE)
Arquiteta e Urbanista
Assessora Acadêmica / Docente em cursos de pós-graduação lato sensu

DOI
Uma imagem contendo Mapa

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Fonte: Imagem Gerada por algoritmo de IA Dall E 3.

As mudanças climáticas estão intensificando a frequência e a gravidade dos eventos extremos, com destaque para as ondas de calor. Esses fenômenos têm impactos significativos sobre as cidades, particularmente nas populações mais vulneráveis e em contextos de urbanização desigual. 

O século XXI tem sido marcado pelo aumento de eventos climáticos extremos, resultado do aquecimento global causado por emissões antrópicas de gases de efeito estufa (Intergovernmental Panel on Climate Change [IPCC], 2023). Ondas de calor prolongadas, tempestades severas, secas e enchentes têm afetado de forma desproporcional os espaços urbanos, onde vive mais de 55% da população mundial (United Nations Human Settlements Programme [UN-Habitat], 2022). 

As ondas de calor urbanas intensificaram-se nas últimas décadas, impulsionadas pela mudança climática e pelo efeito de ilha de calor urbano. O State of the Global Climate 2023 destaca 2023 como o ano mais quente já registrado, com temperatura média 1,45°C acima da era pré-industrial e “bilhões de dólares” em perdas socioeconômicas associadas a extremos de calor (World Meteorological Organization [WMO], 2024).

Nas 50 maiores áreas metropolitanas dos Estados Unidos da América (EUA), a frequência média anual de ondas de calor passou de 2 (1960-1969) para 6 (2010-2023), com a temporada de calor 46 dias mais longa do que nos anos 1960 (U.S. Environmental Protection Agency [EPA], 2025).

Estudos recentes afirmam que as ondas de calor já representam uma crise sanitária e econômica urbana em escala global. Sem medidas efetivas, as perdas humanas e econômicas projetam-se em forte crescimento nas próximas décadas. Diante desse cenário, cresce a necessidade de desenvolver mecanismos de resiliência urbana, capazes de reduzir vulnerabilidades e preparar as cidades para responder aos impactos climáticos.

Ondas de Calor e Vulnerabilidades Urbanas

As ondas de calor constituem eventos extremos caracterizados por temperaturas anormalmente elevadas sustentadas por vários dias consecutivos, podendo ocasionar impactos adversos significativos, como o aumento da morbidade e da mortalidade. Esses fenômenos climáticos extremos têm implicações amplas afetando negativamente setores econômicos, agrícolas e, sobretudo, a saúde pública, além de gerar um aprofundamento das desigualdades socioambientais. Projeções indicam que, sob cenários de continuidade nas emissões de gases de efeito estufa, a frequência, intensidade e duração das ondas de calor tendem a aumentar, acentuando seus efeitos adversos, inclusive o número de óbitos associados. Ademais, tais eventos podem agravar o efeito de ilha de calor urbana, promovendo alterações assimétricas nos fluxos de calor sensível e latente, além de modificar padrões locais de velocidade do vento. As ilhas de calor urbano são um fenômeno causado pela alta densidade de construções, escassez de áreas verdes e impermeabilização do solo (Chew et al.,2021).

Eventos Climáticos Extremos nas Cidades

Além das ondas de calor, outras manifestações climáticas extremas vêm pressionando a capacidade adaptativa das cidades. Enchentes urbanas, causadas por chuvas intensas em áreas com drenagem inadequada, secas prolongadas que afetam o abastecimento de água, e tempestades severas que danificam a infraestrutura crítica são exemplos recorrentes. Esses eventos comprometem a funcionalidade urbana e revelam lacunas históricas de planejamento territorial, especialmente nas periferias urbanas (Meerow, Newell, & Stults, 2016).

O Conceito de Resiliência Urbana

Resiliência urbana refere-se à capacidade de uma cidade em resistir, absorver, adaptar-se e recuperar-se de choques e tensões, preservando suas funções essenciais e promovendo a inclusão social (Meerow, Newell, & Stults, 2016). É um conceito multidimensional que articula componentes físicos, sociais, econômicos e institucionais.

Elementos-chave incluem:

  • Infraestrutura verde e azul, como parques, jardins de chuva e rios urbanos revitalizados.
  • Planejamento urbano integrado e baseado em risco.
  • Participação comunitária na formulação de políticas.
  • Sistemas de monitoramento e alerta precoce.

A crescente relevância da resiliência urbana decorre dos processos acelerados de urbanização e das alterações climáticas, que modificam significativamente os climas locais e intensificam os riscos associados ao fenômeno das ilhas de calor urbanas. A interação entre urbanização e mudança climática impõe desafios complexos e interdependentes às cidades, exigindo abordagens integradas e inovadoras de adaptação e mitigação. Nesse contexto, o desenvolvimento de estratégias resilientes torna-se essencial não apenas para atenuar os impactos adversos do calor urbano, mas também para promover a sustentabilidade ambiental e aprimorar a qualidade de vida nos ambientes urbanos (Fu et al., 2024).

Estratégias e Iniciativas para Cidades Resilientes

Cidades ao redor do mundo têm adotado estratégias para enfrentar os riscos climáticos. Nova York, nos EUA, implementou o plano “OneNYC”, que integra metas de equidade social e adaptação climática. Curitiba, no Brasil, investe em corredores verdes e áreas de amortecimento de cheias. Já Roterdã, na Holanda, transformou espaços públicos em áreas multifuncionais com capacidade de retenção hídrica (UN-Habitat, 2022).

Um dos casos mais interessantes da atualidade é o de Singapura, frequentemente citada como uma das cidades mais verdes do mundo, resultado de décadas de políticas públicas inovadoras e planejamento urbano focado na sustentabilidade. A cidade implementou estratégias para integrar a natureza ao ambiente urbano, tornando-se um exemplo de desenvolvimento ecológico.

O plano estratégico Singapore Green Plan 2030 propõe transformar a cidade em uma “Cidade na Natureza”, com a meta de garantir que todos os moradores estejam a no máximo 10 minutos a pé de áreas verdes (Singapore Government, 2024). Além disso, há investimentos contínuos na restauração de habitats naturais e no aumento da cobertura vegetal urbana. Tais ações evidenciam um compromisso com a saúde ambiental e o bem-estar da população. A arquitetura sustentável é outro destaque em Singapura, utilizando o design biofílico na intenção de melhorar o microclima e a biodiversidade urbana. Singapura se destaca como um modelo viável de urbanismo sustentável e deve inspirar outras metrópoles a buscar soluções inovadoras para os desafios urbanos contemporâneos. Suas políticas integradas mostram que é possível aliar crescimento econômico, bem-estar social e preservação ambiental.

O enfrentamento das ondas de calor e de outros eventos climáticos extremos exige uma nova abordagem para o planejamento urbano, que integre justiça socioambiental, inovação tecnológica e participação cidadã. A construção da resiliência urbana não é uma resposta emergencial, mas um processo contínuo e perene de transformação das cidades. Fortalecer capacidades institucionais, valorizar o conhecimento local e investir em infraestrutura adaptativa são passos fundamentais para garantir cidades mais seguras, habitáveis e sustentáveis frente a emergência atual e as incertezas climáticas do futuro.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade da autora, não refletindo, necessariamente, as opiniões do RUA


Referências

Chew, L. W., Liu, X., Li, X. X., & Norford, L. K. (2021). Interaction between heat wave and urban heat island: A case study in a tropical coastal city, Singapore. Atmospheric Research247, 105134. https://doi.org/10.1016/j.atmosres.2020.105134 

Fu, Q., Zheng, Z., Sarker, M. N. I., & Lv, Y. (2024). Combating urban heat: Systematic review of urban resilience and adaptation strategies. Heliyon10(17). https://doi.org/10.1016/j.heliyon.2024.e37001 

Intergovernmental Panel on Climate Change [IPCC], (2023). Sixth Assessment Report: Climate Change 2023 – Synthesis Report. https://www.ipcc.ch/report/sixth-assessment-report-synthesis-report/ 

Meerow, S., Newell, J. P., & Stults, M. (2016). Defining urban resilience: A review. Landscape and Urban Planning, 147, 38–49. https://doi.org/10.1016/j.landurbplan.2015.11.01 

Singapore Government. (2024). City in Nature – Singapore Green Plan 2030. https://www.greenplan.gov.sg/key-focus-areas/city-in-nature/

United Nations Human Settlements Programme (UN-Habitat). (2022). World Cities Report 2022: Envisioning the Future of Cities. https://unhabitat.org/sites/default/files/2022/06/wcr_2022.pdf 

U.S. Environmental Protection Agency (EPA). (2025, 18 abril). Climate change indicators: Heat waves. https://www.epa.gov/climate-indicators/climate-change-indicators-heat-waves 

World Meteorological Organization (WMO). (2024, 19 março). Climate change indicators reached record levels in 2023: WMO (Press release). https://wmo.int/news/media-centre/climate-change-indicators-reached-record-levels-2023-wmo 

Parceiros