Por Marcelo Batista Nery
05 de junho de 2026.
Eventos climáticos extremos não são apenas fenômenos naturais. Seus impactos resultam da interação entre ameaças ambientais, vulnerabilidades sociais e capacidades institucionais de resposta. Enchentes, deslizamentos, secas prolongadas e ondas de calor pressionam infraestruturas urbanas, ampliam desigualdades preexistentes e afetam profundamente a vida das populações atingidas.
Em sua expressão mais dramática, esses eventos resultam na perda de vidas humanas, alteram permanentemente a trajetória de famílias e comunidades e produzem impactos emocionais e sociais que frequentemente persistem por muitos anos. Infraestruturas podem ser reparadas, equipamentos podem ser reconstruídos e serviços podem ser restabelecidos. As vidas perdidas, porém, não podem ser recuperadas. Por essa razão, toda discussão sobre resiliência urbana e gestão de riscos deve manter a proteção da vida como seu objetivo fundamental.

Foi a partir desse entendimento que o projeto RUA – Resiliência Urbana em Ação reuniu profissionais de diferentes áreas do conhecimento e representantes de diversas instituições para dialogar sobre os desafios associados à gestão de riscos e desastres. A iniciativa partiu da premissa de que fenômenos complexos exigem análises capazes de integrar perspectivas, experiências e competências diversas.
A diversidade de experiências presentes nos encontros permitiu que desafios tradicionalmente tratados de forma setorial passassem a ser analisados de maneira integrada, revelando conexões que frequentemente permanecem invisíveis quando observadas a partir de uma única perspectiva.

O que aprendemos em cada fase?
A primeira fase analisada foi a resposta. Em situações de desastre, a urgência das decisões e a velocidade dos acontecimentos fazem surgir uma pergunta aparentemente simples, mas fundamental: o que está acontecendo? Nos momentos iniciais de uma emergência, a capacidade de compreender rapidamente a extensão dos danos, identificar necessidades prioritárias e mobilizar recursos adequados torna-se decisiva. Para isso, é indispensável dispor de informações confiáveis e atualizadas sobre os serviços essenciais, a infraestrutura urbana e as condições da população afetada. Interrupções no fornecimento de energia elétrica, falhas nos sistemas de comunicação, desaparecimentos de pessoas, danos à infraestrutura e a existência de feridos exigem respostas rápidas e coordenadas.
Nesse contexto, a comunicação emergiu como um dos temas centrais das discussões. Comunicar não significa apenas transmitir mensagens. Significa produzir informações confiáveis, compartilhá-las rapidamente entre instituições, garantir sua qualidade e assegurar que elas alcancem as pessoas certas no momento adequado. Quando os dados são fragmentados, contraditórios ou insuficientes, a capacidade de resposta é comprometida, aumentando a incerteza e dificultando a tomada de decisões. Em situações de crise, informações claras e confiáveis contribuem para reduzir a desorientação, evitar a disseminação de boatos e fortalecer a confiança nas ações adotadas pelos órgãos responsáveis. Quando a confiança se fragiliza, mesmo orientações tecnicamente adequadas podem encontrar resistência e ter sua efetividade comprometida.
Embora a resposta esteja associada às ações realizadas durante a emergência, um dos principais aprendizados dos encontros foi que sua eficácia é construída muito antes da ocorrência do evento extremo. Planos de ação emergencial, treinamentos regulares, protocolos previamente definidos, integração entre instituições e sistemas redundantes de comunicação foram apontados como elementos decisivos para o desempenho das organizações quando uma crise ocorre. Em outras palavras, a capacidade de atuar de forma coordenada durante uma crise depende diretamente do nível de preparação existente. Cada falha de preparação, cada atraso na circulação de informações ou cada deficiência de coordenação reduz a capacidade de proteger pessoas e pode resultar em consequências humanas irreparáveis.
Superados os momentos mais críticos da emergência, inicia-se uma etapa igualmente desafiadora: a recuperação. Seu objetivo imediato é restabelecer o funcionamento da cidade e garantir que serviços essenciais voltem a operar o mais rapidamente possível. No entanto, os debates revelaram que recuperar envolve muito mais do que reparar danos físicos ou normalizar atividades interrompidas. Trata-se também de enfrentar vulnerabilidades que o desastre torna mais visíveis, reduzir seus impactos sobre as populações mais afetadas e criar condições para que a retomada ocorra de forma mais segura, inclusiva e sustentável.
Os impactos de um desastre não são distribuídos de forma homogênea. Grupos que já enfrentavam situações de vulnerabilidade social, econômica ou territorial tendem a sofrer consequências mais severas e a encontrar maiores dificuldades para recuperar suas condições de vida. A insegurança alimentar, a precarização das condições habitacionais, o aumento da exposição a riscos sanitários e a dificuldade de acesso a serviços públicos figuraram entre as principais preocupações. Os encontros também revelaram que contextos de crise podem intensificar relações desiguais de poder, criando oportunidades para diferentes formas de exploração, abusos e práticas ilícitas.

Restabelecer serviços e infraestruturas é fundamental, mas não suficiente. É necessário garantir que os benefícios alcancem efetivamente os grupos mais afetados e que os esforços realizados não contribuam para reproduzir ou aprofundar desigualdades preexistentes. A velocidade é importante, mas sua qualidade e capacidade de promover inclusão social são igualmente decisivas. Ao final dos debates, consolidou-se um entendimento comum: recuperar não significa simplesmente retornar à situação anterior ao desastre. Em muitos casos, isso significaria restabelecer condições já marcadas por fragilidades, desigualdades e vulnerabilidades. O verdadeiro desafio consiste em utilizar o processo de recuperação para fortalecer capacidades, ampliar a proteção social e reconstruir a capacidade de funcionamento da cidade de forma mais segura, inclusiva e menos desigual. A recuperação, portanto, deve ser entendida como uma oportunidade para fortalecer a resiliência, e não apenas como um esforço para restaurar o que foi perdido.
Poucas etapas revelaram de forma tão clara a complexidade da recuperação pós-desastre quanto a reabilitação. Frequentemente ofuscada pela urgência da resposta emergencial ou pela visibilidade das obras de reconstrução, essa etapa ocupa uma posição estratégica. A reabilitação não se limita às estruturas físicas ou aos equipamentos públicos. Ela envolve a reconstrução dos vínculos sociais, a retomada das rotinas cotidianas e a restauração das condições mínimas de segurança, pertencimento e bem-estar necessárias para que indivíduos, famílias e comunidades possam reconstruir suas vidas.
Famílias deslocadas, perdas materiais e emocionais, interrupções prolongadas das atividades econômicas e o enfraquecimento das redes de apoio comunitário podem comprometer a capacidade de recuperação por longos períodos. Embora a disponibilidade de recursos seja um fator importante, ela não explica, sozinha, as dificuldades enfrentadas pelos processos de reabilitação. Fragilidades de planejamento, descontinuidade de políticas públicas, limitações institucionais e problemas de coordenação entre diferentes atores frequentemente produzem impactos tão significativos quanto a insuficiência de investimentos. Muitas dessas dificuldades tornam-se mais evidentes justamente quando a atenção pública diminui e os mecanismos emergenciais começam a ser desmobilizados.
Nesse sentido, a governança emergiu como um tema central. Sem coordenação adequada, mesmo iniciativas bem-intencionadas tendem a perder efetividade ao longo do tempo, comprometendo a consolidação dos avanços obtidos nas fases anteriores. Portanto, a reabilitação representa uma oportunidade para interromper ciclos históricos de vulnerabilidade. Quando conduzida de forma integrada, transparente e com participação das comunidades afetadas, ela pode fortalecer redes de apoio comunitário, ampliar capacidades locais de organização e ampliar o acesso a direitos e reduzir fatores que aumentam a exposição de determinados grupos aos riscos. Por outro lado, quando negligenciada, pode contribuir para a perpetuação das mesmas fragilidades que amplificaram os impactos do desastre.
A reconstrução é frequentemente percebida como o momento em que os efeitos do desastre começam a ser superados de forma definitiva. É nessa fase que se concentram os investimentos mais visíveis, as obras de infraestrutura e as iniciativas destinadas a restaurar áreas atingidas. No entanto, há uma escolha fundamental, capaz de influenciar a vulnerabilidade das cidades por muitos anos: reconstruir para retornar ao que existia antes ou reconstruir para reduzir riscos futuros. A reconstrução oferece uma oportunidade única para incorporar aprendizados produzidos durante a emergência, a recuperação e a reabilitação. Mais do que recuperar edificações, vias ou equipamentos públicos, trata-se de criar condições para que comunidades possam reconstruir suas vidas em ambientes mais seguros e menos vulneráveis. Nesse sentido, a reconstrução deve ser entendida como um instrumento de transformação e não apenas de restauração.
Os debates também evidenciaram que a capacidade de aprender com experiências anteriores constitui um dos pilares da resiliência. Experiências acumuladas, boas práticas e erros cometidos ao longo dos processos de resposta, recuperação e reabilitação oferecem oportunidades valiosas para aperfeiçoar políticas, fortalecer instituições e reduzir vulnerabilidades futuras. No entanto, o aprendizado só produz resultados quando é incorporado às práticas de gestão e aos processos de tomada de decisão. Mais do que acumular conhecimento, trata-se de transformar experiências em capacidades permanentes de adaptação e resposta. Os encontros também destacaram que esse processo não pode se restringir às instituições. As comunidades afetadas possuem conhecimentos, percepções e experiências fundamentais para compreender riscos, identificar prioridades e construir soluções socialmente legítimas. Ignorar essas contribuições pode comprometer a efetividade das intervenções e limitar a capacidade de promover mudanças duradouras.
A reconstrução não deve ser avaliada apenas pela quantidade de obras executadas ou pelos recursos investidos. Seu sucesso depende da capacidade de reduzir vulnerabilidades, ampliar a segurança das populações e fortalecer condições para enfrentar futuros eventos extremos. Trata-se de uma visão que desloca o foco da simples reposição de ativos para a construção de capacidades duradouras de adaptação e proteção. Ao final dos encontros, consolidou-se uma compreensão comum: a reconstrução representa uma oportunidade estratégica para transformar aprendizados produzidos pela crise em mudanças permanentes no território. Seu objetivo não deve ser apenas devolver a cidade à condição anterior ao desastre, mas criar condições para que ela se torne mais segura, inclusiva e resiliente. Reconstruir melhor significa utilizar a experiência acumulada para reduzir riscos futuros e fortalecer a capacidade de proteção de comunidades e instituições.
A prevenção foi a última fase abordada. Apesar de ocupar posição central nos debates sobre gestão de riscos, ela revelou-se um conceito menos evidente do que frequentemente se supõe. Curiosamente, um dos primeiros desafios foi definir o que significa, de fato, prevenir. Em muitos contextos, ela costuma ser associada principalmente a medidas de ordenamento territorial, à elaboração de normas urbanísticas ou à implantação de sistemas de monitoramento e alerta. Embora essas iniciativas sejam fundamentais, os debates mostraram que elas representam apenas parte de uma agenda muito mais ampla.
De fato, prevenir significa incorporar o conhecimento produzido sobre vulnerabilidades, exposições e capacidades institucionais aos processos de planejamento, gestão e tomada de decisão. Significa reconhecer que o risco não é apenas resultado de fenômenos naturais, mas também das formas como as cidades são planejadas, ocupadas e governadas ao longo do tempo.
Um dos principais aprendizados dos debates foi que a prevenção não é limitada pela falta de conhecimento, mas pela dificuldade de promover mudanças institucionais duradouras. Exige maior integração entre setores tradicionalmente fragmentados, continuidade das políticas públicas, fortalecimento da governança e desenvolvimento de capacidades permanentes de coordenação. Em muitos casos, os obstáculos à prevenção não decorrem da ausência de conhecimento, mas das dificuldades de transformar esse conhecimento em ação consistente e de longo prazo.
À primeira vista, salvar vidas, restabelecer condições de funcionamento, reconstruir vínculos sociais, reduzir riscos futuros e transformar conhecimento em ação parecem desafios distintos. Cada um possui objetivos específicos, mobiliza diferentes atores e exige decisões próprias. No entanto, à medida que os debates avançavam, tornou-se evidente que muitos desses processos eram atravessados por obstáculos, capacidades e soluções surpreendentemente semelhantes.
Talvez esse tenha sido o principal aprendizado produzido pelos encontros: a resiliência não é um estado a ser alcançado, mas um processo contínuo de construção coletiva. Ela se desenvolve ao longo do tempo, por meio da combinação de capacidades institucionais, sociais e territoriais que permitem proteger vidas, reduzir vulnerabilidades e fortalecer a capacidade de adaptação das cidades diante de novos desafios.
Os debates também revelaram que as fronteiras entre resposta, recuperação, reabilitação, reconstrução e prevenção são menos nítidas do que frequentemente sugerem os modelos analíticos. Na prática, a gestão de riscos e desastres opera como um esforço contínuo em que coordenação, aprendizado, governança e proteção das populações mais vulneráveis permanecem centrais antes, durante e depois dos eventos extremos.
Por trás dos indicadores, dos protocolos, dos sistemas de informação e das estratégias de governança estão pessoas, famílias e comunidades que vivenciam perdas que nenhuma reconstrução é capaz de reparar integralmente. Por essa razão, a resiliência não pode ser compreendida apenas como uma questão técnica. Ela envolve escolhas políticas, capacidades institucionais e planejamento territorial, mas depende igualmente da capacidade de preservar memórias, fortalecer vínculos de solidariedade e sustentar compromissos coletivos de longo prazo.

Construir cidades mais resilientes exige mais do que reagir a eventos extremos. Exige reconhecer que os riscos são produzidos socialmente, que as vulnerabilidades são distribuídas de forma desigual e que as soluções dependem de esforços permanentes de cooperação, aprendizagem e adaptação. Em última instância, a resiliência não se mede apenas pela qualidade da infraestrutura ou pela rapidez na restauração dos serviços, mas pela capacidade de proteger. Afinal, cidades podem se recuperar, infraestruturas podem ser reconstruídas e serviços podem ser restabelecidos. A vida humana, porém, não pode.
O evento foi realizado em 18 de junho de 2026 no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), a gravação do material está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=GN4mYOsFm5Y&t=5s e o livro está disponível para download em rua.eco.br/livro























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