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Quando a experiência desloca o olhar: reflexões sobre o urbano a partir de duas cidades

Por Marcelo Batista Nery
25 de Janeiro de 2026

Meu pai faleceu recentemente. Pela primeira vez em cinquenta anos, sua ausência faria do Natal e do Ano Novo, para minha mãe e para mim, um tempo de dor. Trago essa situação familiar de forma explícita não como um recurso narrativo gratuito, mas para deixar claro que este texto foi escrito com deferência e nasce de uma experiência concreta.

Diante da nossa perda, surgiu a ideia de levar minha mãe para passar as festas de fim de ano em sua cidade natal, uma pequena localidade do interior da Bahia. Um local onde se concentram memórias afetivas positivas, vínculos preservados e lembranças associadas ao pertencimento. A viagem teve, inicialmente, um propósito simples: oferecer apoio emocional à minha mãe e encontrar algum alento em meio ao luto.

Nesse lugar, marcado por um ambiente muito distinto do meu habitual, não consegui desligar o olhar analítico. As dinâmicas sociais, os ritmos, os modos de convivência e de organização da vida cotidiana chamaram minha atenção de maneira inevitável.

Pedras, Pereira, Santaluz – BA
2026

Fonte: Google Maps.
Imagem: Google / CNES / Airbus.

A observação de uma pequena cidade baiana revelou um ambiente marcado por forte proximidade social e relações interpessoais densas, em um cotidiano no qual vínculos familiares e afetivos desempenham papel central na regulação da vida social. Nessa realidade, a informalidade e os ilegalismos[1] — seja no trabalho, na mobilidade, na forma de morar, no acesso a serviços ou mesmo na mediação de conflitos — não se configuram apenas como déficit institucional, mas também como mecanismos práticos de salvaguarda e sociabilidade.

Essas formas de proximidade e esses vínculos podem ser vistos como positivos na medida em que favorecem redes de solidariedade, reconhecimento mútuo (frequentemente mediado por parentesco ou origem) e práticas não institucionalizadas de resolução de problemas. Ao mesmo tempo, esses arranjos assumem um caráter ambíguo quando reforçam dependências pessoais, podem limitar o acesso a direitos universais e naturalizar desigualdades estruturais. A ausência ou fragilidade do Estado produz, nesse caso, um tipo específico de ordenamento social, frequentemente seletivo e sustentado por favores e hierarquias locais.

É a partir dessa experiência que proponho a reflexão que segue — a qual ganha sentido adicional na celebração dos 472 anos da cidade de São Paulo.

São Paulo – SP
2026

Fonte: Google Maps.
Imagem: Google / Maxar Technologies / CNES / Airbus / Landsat / Copernicus.

Em contraste, ao tratar da condição social de uma metrópole como São Paulo, observa-se uma realidade radicalmente distinta em termos complexidade e diversidade social. Em linhas gerais, tende-se a afirmar que, nesse espaço díspar, a vida social é fortemente mediada por normas formais, aparatos estatais, sistemas de controle e mecanismos jurídicos. No entanto, essa afirmação precisa ser relativizada.

Mesmo na capital paulista, essa mediação institucional não se manifesta de forma homogênea nem contínua em todo o território. Há áreas, situações e circunstâncias em que a presença do Estado é intermitente, seletiva ou mesmo substituída por arranjos informais de regulação social, baseados em redes comunitárias e na atuação de atores não estatais. Assim, é importante que São Paulo também seja compreendida como resultado de arranjos híbridos, nos quais normas oficiais convivem, disputam e se articulam com práticas informais.

Essa constatação desloca a análise de uma visão idealizada da metrópole como espaço institucionalmente ordenado para uma compreensão mais realista e crítica, na qual legalidade e informalidade podem operar simultaneamente.

Em uma cidade marcada por alta densidade institucional, os arranjos sociais se configuram de forma desigual e fragmentada, variando conforme o território, os atores envolvidos e as situações concretas de interação social. A cidade revela, assim, produção de formas seletivas de aplicação da lei. Coexistem, nesse quadro, aspectos positivos — como maior acesso formal a direitos, políticas públicas e oportunidades econômicas — e efeitos negativos, quando esses mesmos mecanismos operam de forma excludente, reforçando estigmas, marginalizações e legitimando práticas de controle que afetam desproporcionalmente determinados grupos sociais.

A comparação entre as duas realidades observadas evidencia que nenhuma delas pode ser avaliada a partir de uma lógica dicotômica, como se a pequena cidade representasse ordem e a metrópole, desordem — ou o inverso. Em ambos os casos, há combinações complexas de proteção e vulnerabilidade, inclusão e exclusão, proximidade e anonimato. O que varia não é a existência de conflitos ou contradições, mas as dinâmicas sociais e institucionais por meio das quais eles são produzidos, geridos e vivenciados.

É justamente nesse ponto que minha experiência pessoal e meu olhar analítico podem contribuir para pensar São Paulo em seu aniversário. Ao transitar entre diferentes escalas do urbano, do rural à metrópole, torna-se possível relativizar certezas, questionar modelos explicativos simplificados e reconhecer a cidade como um organismo vivo, marcado por contradições. Celebrar São Paulo, nesse sentido, não significa apenas exaltar sua grandiosidade ou sua potência econômica, mas refletir criticamente sobre os modos como ela organiza a vida social, distribui oportunidades e produz desigualdades.

Imagem 1 – Pedras – BA
Fonte: Acervo pessoal.
Imagem: Marcelo Batista Nery, 2026.

Imagem 2
Fonte: Flickr.
Imagem: Mauricio Camacho, s.d.

Escrevo, portanto, diante da oportunidade de pensar, de forma comparativa e sob a perspectiva de uma aprendizagem rica e significativa, nas condições sociais que moldam cidades, relações e formas de viver.

(Re) pensar o urbano a partir da experiência do luto e do deslocamento me permite, enfim, recolocar no centro do debate uma questão fundamental: que modos de convivência, pertencimento e gestão produzimos — e quais queremos construir? Talvez essa seja uma pergunta necessária para uma metrópole que completa mais um ano de existência e que segue nos desafiando a habitá-la de forma mais política e humana.

Dedico este texto à memória de Flavio Nery, meu pai, cuja experiência de vida ajuda a moldar meu olhar sobre pessoas e contextos.


[1] Utilizo aqui o termo ilegalismos no sentido proposto por Michel Foucault, para designar práticas socialmente toleradas ou reguladas de forma seletiva, situadas entre o legal e o ilegal, isto é, produzidas e administradas por diferentes instâncias de poder, e não simplesmente como desvios ou infrações à norma jurídica.

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