Por Marcelo Batista Nery
20 de novembro de 2025
DOI: 10.5281/zenodo.17644578

Pode parecer contraditório, mas não me sinto à vontade em escrever algo que soe como uma defesa em causa própria. Creio que posso oferecer um exemplo claro sobre isso.
Fui um jovem negro morador da Zona Sul de São Paulo em um período em que a capital paulista figurava entre as mais violentas do país — e muitas localidades próximas à minha residência estavam entre as mais perigosas do mundo. Vi pessoas assassinadas na frente de padarias onde comprava pão e no caminho da escola. Ainda assim, no doutorado, quando desenvolvi minha tese sobre a dinâmica dos homicídios dolosos em São Paulo, optei por não tratar das questões étnico-raciais.
Essa ausência, desde então, costuma ser mencionada por quem conhece o trabalho, dada a reconhecida correlação entre violência letal e raça. Costumo explicar que a lacuna reflete a baixa qualidade — ou até mesmo a inexistência — de dados que permitam examinar essa relação de modo consistente sob uma perspectiva espaço-temporal e intraurbana.
Por isso, considero essencial retomar a referida ausência sempre que ele ganha relevância pública — seja por um caso de grande repercussão, um marco histórico ou uma data simbólica. E como hoje se celebra o Dia da Consciência Negra, vejo aqui uma oportunidade para refletir sobre essa questão a partir do que posso oferecer: uma leitura crítica e fundamentada das relações entre raça, território e violência.
Ao analisar, de forma exploratória e ensaística, dados de homicídios dolosos (cometido com a intenção de matar) registrado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) e georreferenciados por mim nas Áreas de Proteção e Recuperação dos Mananciais (APRMs) da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), é possível identificar padrões que ajudam a compreender as desigualdades que estruturam o crime urbano.
As APRMs, definidas por lei estadual e delimitadas pelos Comitês de Bacias Hidrográficas, constituem territórios de interesse regional que reúnem diferentes porções do território paulista. O uso de limites naturais como referência para fiscalização é uma estratégia pertinente, sobretudo quando essas áreas de preservação se sobrepõem a espaços urbanos marcados pela presença de propriedades particulares.
A concentração de homicídios nesses territórios revela indícios consistentes sobre os fatores sociais e espaciais que moldam a violência. Os registros se distribuem de maneira desigual, concentrando-se sobretudo em regiões que se estendem das bordas sudoeste ao extremo leste da capital — áreas caracterizadas por urbanização precária, carência de equipamentos públicos e vulnerabilidade social.
Densidade de homicídios dolosos em APRMs1
Região Metropolitana de São Paulo 2005-2024

Limites territoriais das APRMs – Fundação Seade.
Elaborado por: Marcelo Batista Nery. Fonte: Dados – SSP-SP.
Essas áreas, especialmente as localizadas nas franjas da metrópole paulistana, apresentam diversos problemas socioambientais. São marcadas por deficiências no acesso a serviços básicos — como água, esgoto e coleta de lixo —, baixos níveis de renda e densidade populacional reduzida. Estendem-se por áreas de transição entre o urbano e o rural — notadamente na Serra da Cantareira, no extremo leste e na zona sul —, onde as fronteiras entre cidade e campo são difusas.
Assim sendo, o espaço urbano se estrutura de modo fragmentado e segregado, com crescimento de loteamentos irregulares, caracterizados por precariedade de serviços públicos, padrão urbanístico desordenado e dispersão física e funcional. Essa combinação de isolamento, transformações no uso do solo e ausência de infraestrutura intensifica as desigualdades e amplia o potencial de conflitos.
A população residente nesses territórios de carência é majoritariamente preta ou parda, ainda que heterogênea. Mesmo sem dados étnico-raciais sistematizados, a análise espacial oferece indícios eloquentes de como desigualdades sociais se entrelaçam, conformando paisagens de risco e exclusão.
O processo histórico de urbanização de São Paulo empurrou os grupos mais pobres — e, em larga medida, negros — para as margens da cidade. Nas periferias, que sempre devem ser compreendidas em seu sentido plural, esses grupos depararam com a insuficiência das políticas públicas e um vácuo de legitimidade institucional, que abre espaço para formas paralelas de regulação social exercidas por grupos criminosos. A sentida ausência do Estado reforça ciclos de medo, silêncio e impunidade, especialmente entre grupos e sujeitos historicamente estigmatizados, oprimidos e discriminados, como os jovens — que se tornam vítimas recorrentes de violência letal.
O risco de morrer de forma violenta está relacionado ao lugar que o indivíduo ocupa no interior das relações sociais da cidade. Fatores que vão da escolaridade, renda, densidade populacional até a legitimidade social atribuída às atividades policiais, compõem um quadro multifacetado que exige políticas integradas e territorializadas.
A violência não se manifesta apenas nos homicídios. Ela atravessa as experiências cotidianas das periferias — nas ruas, no trabalho, nas relações familiares — e se reproduz em múltiplas formas: física, institucional, doméstica, sexual e simbólica. Essas experiências compõem um contexto de exclusão e segregação que tendem a ser agravadas pela hoje problemática intersecção entre questões sociais e ambientais.
Imagem que ilustra a matéria intitulada “Crime organizado coordena invasões em áreas de mananciais de São Paulo”
Represa Billings, São Paulo 2019

Fonte: O Estado de S. Paulo.
Imagem, FELIPE RAU / ESTADÃO.
O acesso facilitado a armas de fogo e o envolvimento de crianças e adolescentes em dinâmicas de tráfico e consumo de drogas tornam-se elementos centrais para compreender a violência urbana. A combinação entre armas e drogas potencializa a letalidade dos conflitos cotidianos e expõe a juventude nas periferias a níveis alarmantes de risco e morte precoce. Paralelamente, a presença do crime organizado e a fragilidade das instituições públicas de segurança produzem um cenário em que o controle estatal é fragmentado e desigual — o que, por sua vez, reflete e reforça as disparidades raciais e socioambientais que estruturam o espaço urbano.
Imagem que ilustra a matéria intitulada “Prefeitura trava ‘guerra’ com PCC contra loteamentos em área protegida” – Represa Billings, São Paulo 2023

Fonte: Metrópoles.
Imagem, REPRODUÇÃO.
Diante desse quadro, torna-se indispensável problematizar a ocupação das áreas de mananciais e promover a mobilização articulada de diferentes setores — educação, saúde, planejamento urbano, cultura, meio ambiente e segurança pública, entre outros — no enfrentamento das causas estruturais da violência. Isso implica reconhecer que certos territórios, historicamente marginalizados, racialmente marcados e, não menos importante, de interesse do mercado imobiliário, requerem atenção prioritária e políticas públicas específicas.
Imagem que ilustra a matéria intitulada “Cemitério do PCC? Polícia encontra mais de 10 corpos enterrados em São Paulo” – Represa Billings, São Paulo 2025

Fonte: Brasil Paralelo.
Imagem, Estadão.
Compreender a distribuição e o movimento dos homicídios sob uma perspectiva local e racial significa ir além da mera exposição midiática de corpos e estatísticas. Trata-se de investigar como as iniquidades se inscrevem no território e de que modo a cor da pele, em muitos casos, condiciona a geografia da vida e da morte nas cidades brasileiras.
1 Densidade de ocorrências, estimado pelo método de Kernel, baseado no valor médio de ocorrências, entre 2005 e 2024, atribuído ao centroide do setor censitário (2010). Optou-se por uma distância de 2.000 metros para o raio de influência das interpolações realizadas com o método.























Deixe um comentário